ASSIM É A VIDA!!!
Pobre, negro, pequeno,olho grandes, castanhos, rasos d¿água
Pernas finas, pés achatados, dedos longos, sorriso apagado.
Sonhos, desejos, vontade...
Ele segue seu longo trecho, aclives, declives, curvas.
Ele vive seu emaranhado de sonhos apenas em sua cabeça de menino.
Inocente, decente, vigia do mundo.
Se habituou a observar seus, tão pequenos, tão frágeis, tão meninos. Eles se espreitam pelos sinais, desviando cada vez mais, de seus trágicos destinos.
Ele passa fome, sente frio e ainda brinca de esconder...Dribla a violência, acreditando que a vivência melhorará quando crescer.
Sente seus olhos se afastarem do chão e bater seu coração, mas quanto mais ele cresce, mais ele permanece: menino. É triste, fechado, decepcionado.
Não lhe foi dado o direito de ter direito. Não teve colo, nem abraços, ovos de páscoa, nem carrinho de plástico, sequer natal.
Pobre criança, nem tão pobre de sonhos. Cultiva entre os dedinhos, uma pequenina flor...segue ao cemitério e nada mais o tira do sério do que conviver com a dor.
A ausência trás a saudade. Ele se recorda que nos fins de tarde brincava com seus irmãos.
Perdeu pai, mãe, vó e o tio João. Ele já faz parte do mundo injusto, desde que uma bala arrancou de sua boca um NÃO!!!
Ele queria que o tempo voltasse para sentir novamente mesmo que em sua mente, o quanto é bom não partir...ele os amaria pelo fim dos seus dias.
Seu nome não sabemos, seus pais não conhecemos, ele é chamado de ladrão??? É filho da violência, retrato da impaciência, desse estado que não é nação.
Ele pode perder? Só por que é negro, pobre e pequeno? NÃO!
Ele também tem sentimentos, também queria beijos de bom dia e café com pão. Queria seus pais sempre unidos, ter nos lábios um sorriso, caminhar sem pé no chão.
Olhar para a frente, sem ter medo de patrulha, sem esgotos pelas ruas e ratos no porão.
Queria ser normal, com gatinhos no quintal...queria a sensação de felicidade que não é possível hoje e nem foi naquela idade, quando brincava de ilusão.
Seus amigos lhe foram tirados, quando bandidos apressados os baniram desse mundão.
Ele queria sobreviver, sem ter que recorrer à ¿Fome Zero¿ , ¿Auxílio Gás¿ e ¿Auxílio Sonho¿. Quer seus direitos, quer terra, uma casa e portão.
Mas ele reconhece que se por um instante tivesse, seus pés menos no chão...voaria mais alto e diria aos homens do ¿Planalto¿: Quero ser cidadão.
Ele é filho desse país, que ainda tem gente que diz que ¿é brasileiro e não desiste nunca¿. Mas ele desistiu, cansou de viver de auxílios, se submeteu a seu próprio exílio e morreu sem ter caixão. Se igualou a muitos, seu corpo não tem identificação.
Sem CPF, sequer identidade, esse menino da cidade não possui mais vida em seu coração.
Ele se foi , mas não há ninguém para sentir sua falta. Era comum, só mais um, sem títulos, sem faculdade , sem nada.
Mas vejam a TV, o papa vai morrer, mas quem era esse João? Ah! Sim..dono de um país, sua vida está por um triz , seus ossos querem o chão.
A mídia dramatiza, o povo se sensibiliza e faz na praça uma oração.
Mas e aquele menino, retrato do que vivemos, sequer lembraremos...porque nos faltou olhar para os lados. Já o Papa!! O ¿papa é pop¿.
Vejam!!!!! Mais um repórter...correria, agitação, nossa! O Papa não está no caixão! Ele morreu e deixou seu legado, seus ensinamentos, seus sentimentos, pena que ele não conheceu o ¿Abusado¿ .
Ele não viu a favela, a miséria, nem os pés no chão de muitos favelados.
Agora brigam por besteira, falam nas igrejas de uma nova eleição. Será latino, será negro? Eu pergunto: Será humano ou mais brasileiro?
Amanda Maria de Freitas / 06/04/2005
AMANDA FREITAS - 8:58 AM